Santo Tirso é, em ponto pequeno, uma amostra de Portugal: segredos de pedra, o rio — que bem se pode equiparar ao “mar” lusitano ou ao Adriático, no dizer jocoso de Teotónio Gonçalves — os templos, museus, azulejos, ferro forjado, artesanato, luz e som, barroco, receitas antigas de culinária e doces.
O Mosteiro de Santo Tirso resultou da afetação conventual de uma propriedade rústica ou “vila”, com o nome de Moreira, pertença de Dona Unisco Godiniz, onde feitores, criados e feudatários viviam como falanstério, em regime cenobítico. Além dos terrenos da atual Escola Agrícola, integravam a herdade a Quinta da Devesa, o terreno onde se situa a Fábrica de Santo Thyrso, o Parque D. Maria II e o Casal de Pereiras, que foi passal. As doações das quintas eram feitas, encomendando ao abade que satisfizesse as dívidas e cumprisse outras obrigações que o doador tivesse com conselho de el-Rei.
A cidade tem atualmente 192 ruas, incluindo alamedas, avenidas, jardins, largos, parques, praças, pracetas e travessas. As “quelhas ”, “vielas ”, “rocios ”, “pátios”, “escadas ”, “hortas”, “cais ”, “carreiros”, “calçadas ”, “arcos ”, “becos” e “azinhagas”, se as houve, desapareceram, envergonhadas, da microtoponímia tirsense.
É bastante neblinosa a configuração toponímica de Santo Tirso, no dealbar da nacionalidade. Para trás, nem se fala!
Quando, em 1258, D. Afonso III mandou inquirir, pertenciam à freguesia os lugares de Argemir (Argemil), Cabroneira (Carvoeira), Frohiaes (Friães), Vilalva, Juyam (Gião), Lacuna (Lagoa), Arcaide (Alcaide), Fontibus (Fontes, hoje Quinta das Fontes, em S. Miguel do Couto) e Varzenela (Varziela).
Na Beneditina Lusitana, publicada em 1644, Frei Leão de S. Tomás refere que “junto à entrada do Mosteiro fica um Burgo pequeno chamado Cidenai, nome que teve seu princípio do sobrenome do Infante Alboasar Ramires (que fundou ou reedificou o dito Mosteiro) do qual diz o Conde Dom Pedro que por seu ânimo, esforço e senhorio se chamou Cide Alboazar e foi, com seus filhos e descendentes, senhor daquelas terras da Maia, em cujo distrito fica o Mosteiro. Por onde Cidnai é o mesmo que Cidenati, lugar dos filhos e netos daquele que, por seu domínio e senhorio se chamou Cide: porque (como alguns dizem) Cide em Mourisco é o mesmo que Senhor. Não faltará quem diga que Cidenai é o mesmo que lugar do senhor Anaya, porque Cide é o mesmo que senhor e Anaya é sobrenome de fidalgos antigos e no mesmo Mosteiro achamos, pelos anos de Cristo 770, um Monge chamado Frei Nuno de Anaya.”
Na Corografia Portuguesa, dada à estampa em 1706, Santo Tirso — a que o bispo do Porto, Dom Rodrigo da Cunha, chama Madalena — aparece com duzentos vizinhos distribuídos pelas aldeias de Sidinaes, Picoto, Tapado, Alagoa, Vilalva, Friães, Gião, Guermil, Varzea, Alcayde, Cabroeyra, Boyeyro, Real e Olival, conforme o Padre António Carvalho da Costa achou no Prontuário das terras de Portugal, de 1689.
Como se verifica, ganharam foros de mapa os lugares de Sidinais, Picoto, Tapado, Várzea, Boieiro, Real e Olival. Desapareceram “Fontes”, que passou a S. Miguel do Couto, e Varziela, que, juntamente com Piedade e S. Bartolomeu, passaram a ser consideradas “ermidas”.
Em 1758, na freguesia, moravam cerca de 850 pessoas distribuídas pelos seguintes lugares: Cidenai (com 48 fogos); Taipas (8); Carvalhal (8); Picoto (26); Rãs (3); Dinis (1); Urgal (?); Bessadinha (1); Olival (1); Boeiro (1); Areal (?); Varziela (?); Real (1); .Alhares (2); Monte (?); Tapado (9); Lagoa (?); Arco (4); Alcaide (2); S. Bartolomeu (1); Barge (1); Argemil (8); Carvoeira (6); Friães de Baixo (13); Friães de Cima (19); Moinhos (3); Gião (1); Penêdo (5); Vilalva (19); Barge (sic) d'Além do Rio (2); Trofa (5); Montinho (1); Pinheirinho (14).
A estas evocações — chamemos-lhes assim — da nomeação do burgo, acrescentamos a que um dia sonhou Leite de Vasconcelos, ao suspeitar que a origem do nome Cidenai provirá de “Lares Cerenaci”, isto é, casas daquele que combateu com denodo.
Embora durante muito tempo o lugar em que a “Rua” se escarranchava se tenha chamado Rua de Cidenai ou Largo de Cidenai, o povo crismou-o de Largo da Cadeia depois de, em 1859/60, se ter edificado a Cadeia da Comarca que foi inaugurada em 30 de junho de 1860.
O pequeno cárcere que existiu no local tinha apenas dois quartos sobrepostos, comunicantes por um alçapão e uma escada de banzos, um para cada sexo.
Demolida a cadeia (melhor dizendo: “as cadeias”), em 1915, Francisco Cândido Moreira da Silva e o irmão mandaram construir ali o Hotel Cidenai cuja demolição, anunciada na altura do seu encerramento em 31 de dezembro de 1970 e executada em 1982/83, fez desaparecer do lugar todas as referências ao burgo original.
Do rol de bens imóveis propriedade da Câmara Municipal, no momento em que a povoação de Santo Tirso foi elevada à categoria de vila (1863), consta: - uma propriedade de casas situada no começo da “rua de Sidgnai desta vila” que é a cadeia, tem prisões térreas, salas livres e sala de perguntas para o respetivo Juiz de Direito, mandada construir pela câmara de 1858-59.
A partir de 1905 e durante algum tempo, o Largo da Cadeia passou a integrar a Rua de Sousa Trepa até que foi batizado de Largo Coronel Baptista Coelho, nome de perdura até aos nossos dias. Este Largo também esteve à beira de se chamar «Avenida 28 de Agosto».